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28 de jul. de 2010

Relatos de um poeta desesperado.

Tive um pesadelo!

Acordei envolto no suor de meu corpo
Que tremia na já tão intima solidão

E , de imediato, quase antes do primeiro suspiro,
Percebi-me vazio de palavras diante do fato irrevogável que era meu corpo a crepitar
Uma escuridão imensa, dentro de mim

Os signos eram apenas polígonos carrancudos e opacos

O contraditório escândalo sobre a Poesia

Sem serenidade não há escrito
Há apenas, Grito!

É isto que, agora, ouço quanto sinto a pele tremer e rasgar

:

Até as palavras mais duras precisam de vento leve que as faça flutuar

A poesia dor, pode-se dizer
É o momento em que o corvo,
Com dentes em vermelho fétido e putréfico,
Quase toca o chão em um rasante sutil

Mas, como pode?
O peso de cada grito em uma unica palavra leve?

10 de jul. de 2010

Meditação Quarta, Parágrafo Quarto*.

Ai de mim
Ai de nós

Feitos em parte de Tudo
E em outra parte de Nada

Uma parte arriscadamente sincera
Outra parte cegamente enganada

Tendo em mim
Todos os desejos
Toda a coragem e todo o medo
Para ir de encontro aos rochedos
Que o mar dos afetos me levar

Mas há neste jardim de flores suicidas (ah, minhas convicções!)
Pássaros que cantam motivos que não me pertencem
Velhos livros empoeirados
Na caduquice do tempo:
- o dever-dos-amores!
- A moral-geométrica-dos-desejos!

Então algum Nada que há em nós
Se encontra com algo de um Tudo
Que não é nosso

Ingênuo, e ainda vazio,
Vejo-me cantando:
- Agora sei todos os teoremas-pitagóricos-dos-desejos-de-plástico;
Sou uma “tecla-de-piano” **-afinada-e-lubrificada-que-soa-sempre-a-mesma-nota!

Mas os lábios que me beijam
Não me excitam
O hálito quente ao meu ouvido
Não arrepia o meu corpo

Pois se tudo o que há em mim é mar
Qualquer forma de cais
E só um nada qualquer no mundo

Não é meu este corpo

Nem é minha esta boca que se abre
Nem a fome que ela sente

Gritarei nos ouvidos de Descartes
Até que ele fique surdo:
- O meu único erro
É não seguir as marés de minhas intensidades!
(mudas)



"Não existem motivações racionais. Existem racionalizações de motivos emocionais."
(Aline Mayfair, aqui)



*Descartes, René. Meditações Metafísicas, “Meditação Quarta, Do Verdadeiro e do Falso”. 1641.
** Do livro Memórias do Subsolo, do Dostoiéviski. Mais precisamente, na pagina 44.

9 de jul. de 2010

Estou a ler:

" Mas tenho de sorrir, porque o sal do mar está no meu sangue e podem existir dez mil estradas sobre a terra, mas nunca irão me confundir, pois o sangue do meu coração sempre voltará para a bela fonte. Então o que devo fazer? Devo erguer a boca ao céu, tropeçando e balbuciando com uma língua temerosa? Devo abrir o peito e bater nele como num tambor, buscando a atenção do meu Cristo? Ou não será melhor e mais sensato que me cubra e siga em frente? Haverá confusões e haverá fome; haverá solidão com apenas minhas lágrimas como pequenos pássaros confortadores, rolando para suavizar meus lábios secos. Mas haverá também consolação e haverá também beleza como o amor de uma garota morta. Haverá algum riso, um riso contido, e quieta espera na noite, um medo macio da noite como o beijo pródigo e mordaz da morte. Então haverá noite e os doces óleos das praias do meu mar, derramados sobre meus sentidos pelos capitães que desertei na sonhadora impetuosidade da minha juventude. Mas serei perdoado por isto, e por outras coisas, por Vera Rivken e pelo incessante bater das asas de Voltaire, por parar para ouvir e observar aquele fascinante pássaro, para todas as coisas haverá perdão quando eu retornar à minha terra natal pelo mar."

Pergunte ao Pó, John Fante, pg 103.


Meus agradecimentos a Pâmela Martini, é realmente um livre incrível.

8 de jul. de 2010

Conselhos de Okeanós I.


Ângelo Bronzino, Alegoria do Triunfo de Vênus (entre 1540-1545)

Só aprende a amar quem é capaz de assumir toda a dor que se sente.

4 de jul. de 2010

O papel rasgado e o sangue a escorrer.



É interessante como todos os escritores e poetas que tenho conhecido ultimamente sempre tiveram um contato com livros, palavras, desde de suas infâncias.
Eu nunca tive isso, cresci sem palavra. Recebendo do mundo as informações que ele me dava de graça, talvez seja por isso que hoje penso que foram de péssima qualidade(existe mesmo isso garoto?). Comecei a ler por teimosia e as palavras me sairam como sangue que jorrasse de um corte profundo: talvez seja por isso que a minha relação com as palavras foi sempre de dor, furto, crime...
Hoje, escrevo como que numa espécie de tentativa de respirar: o pulmão frio a ranger, o ar pesado, as vezes até cuspo sangue, vomito signos desconexos e sem nenhum sentido.


Obs: acho que este post deveria ser maior, pelo o conteúdo que ele pretende expressar. Na verdade, era pra ter sido publicado no blog novo(meucadernodegritos.blogspot.com), mas por falta de paciência pra construi-lo, e sendo eu terrivelmente perfeccionista, ele ainda não foi ao ar de vez.

3 de jul. de 2010

Ainda sobre a pagina em branco e o papel rasgado.

Enfim, eis que é a vontade...

Vontade de ser ritmo!

Uma orquestra inteira a invadir a alcova do silêncio
Marcando o compasso da marcha intrépida
(calando os relógios que sussurravam o fim e a resignação)

É só por isso,
Pelo silêncio e pelo grito:
Os poemas, as pinturas na caverna, os argumentos lógicos, a insolência dos amores...
E sobre tudo, os moinhos de vento: ...


[Seguia-se aqui algumas linhas tratando da minha tentativa de demonstrar o que significa esta metáfora com os "moinhos de vento". Mais uma vez, calei-as]

30 de jun. de 2010

A pagina em branco...



Eu quero beber uma garrafa etílica de palavras
De um único gole
(litros e litros de locuções des-semânticadas)

Desengasgar este nó de silêncio
Ao mesmo tempo que me embriago de gritos

Por que o que me dói no estômago
É este vazio de versos que me preencham os pulmões
Que me sufoquem os pensamentos

Que me tirem o folego
E que me façam crer por um único instante
(enquanto recito-os em voz trêmula)
Que pode existir algum tipo de perfeição e beleza na vida
Em cada versinho... em cada universo que trazem recolhido dentro deles

Estou a ler Memórias do Subsolo, do Dostoiéviski, e hoje sinto ímpetos de sair e me embriagar de álcool e cigarros.

28 de jun. de 2010

O Destino.


Achei a imagem na internet, quem conhecer o créditos, por favor, relatar-me nos comentários

Talvez uma escolha resolva
Talvez uma promessa acalente
Tomara que o medo se dissolva
Na incapacidade da mente

E ficamos nós a fazer-mos escolhas, acreditando que somos capazes de prever o efeito exato delas. Para amanhã, fazemos promessas. Tendo fé não apenas que sabemos o que nos será posto para escolher, mais que também sabemos quem seremos amanhã. E assim confiamos que seremos forte o bastante para agir da forma que agora achamos certo -ingenuidade sempre; algumas vezes, covardia de agir agora, diante dos fatos reais: sempre adiando e confiando na razão cega e limitada.
Pobre de nos! Temos os olhos de vidro, sempre embaçados com o calor dos afetos.

18 de jun. de 2010

O Ultimo Epitáfio.


"Deus é o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio"
José Saramago (1922-2010)


6 de jun. de 2010

Narciso Ébrio e Apaixonado

Cena do filme Nome Próprio de Murilo Sales

Jogado no canto daquele apartamento vazio

Estava o corpo ainda vivo


Talvez apenas suspiros

Aprisionados naquele pulmão cancerígeno

(A evaporar em fumaças de cigarro, podre e roxo)


Sussurrava gemidos


Talvez vomitasse delírios

(esôfago seco e rígido a rachar em acidez):


“Mar


Rio


Ferido


Mais que isso

Sempre mais que tudo


Cindido


Distúrbio noturno


Tranqüilo?


Não ainda

Sempre mais ainda


Metafísico

Físico só


NARCISO!”


Em sua pele

Apenas calor era

Os raios que rompiam a janela


O sol ainda insistia em nascer lá fora.

Poeminha a Amada Temerosa (ou Dos Amores Primaveris)

A12narciso1

Narciso (Narcissus), planta que floresece normalmente no período do inverno e da primavera.

Eu te amo


Porque vida é Planta

Que cresce em busca de luz


Quando partires, sofrerei

Tu sofreras


Porque viver é rosa


E da rosa eu quero tudo!

Até os espinhos.

26 de mai. de 2010

Pequeno bilhete ao marinheiro

Amar tudo
E odiar tudo

Tudo desejar
E sempre nada ter:

Eis a sina de quem nasceu pra ser

MAR

23 de mai. de 2010

Um Parêntese ao Poeta


Gran finale
Damário da Cruz

Avise aos amigos
que preparo o último verso.
A vida
dura menos que um poema
e no alvorecer mais próximo saio de cena.


Damário da Cruz: morreu em 21 de maio de 2010, não o conheci, mais se foi o seu ultimo desejo distribuir estes versos, eis ai.


“A possibilidade de arriscar é que nos faz homens”


Tomara que a mim também seja dada essa ultima graça de poder escrever antes da morte, com ela a bater na porta.

Pesquisando por ai algo mais dele, achei tal belo poema:

Caixa - preta


Sou um homem.
Portanto,
mais que palavra.


Não pronuncio
o sentimento
apenas como palavra.


O que foi dito
ao entardecer
não se confirma
na madrugada.
O que foi visto
no sonho
não se confronta
com a realidade.


Sou um homem.
Portanto,
uma surpresa.

A Nau Solipsista


"No primeiro momento, Descartes é uma Ilha.
Depois, é um Deserto."

Leidevam Rodrigues


Maíra...
Será a vida
Uma ilha?

Maíra...
Mais ela é só Mar
E ira

Maíra
Mais que um barco
Uma paixão aflita.



A frase, eu ouvi ontem de um amigo em meio a goladas de álcool.
O poema, eu fiz em 18 de abril deste ano, por volta das 2:30 da manhã, também em meio a uma bebedeira e poemas de
Manuel de Barros, para uma pessoa linda que eu havia acabado de conhecer naquela madrugada.

15 de mai. de 2010

Com a pele fria e sem sentir.

É que narciso
Tem os olhos de vidro
E só enxerga
Por imagem e representação

E ele sempre morre petrificado
Na inércia da reflexão
Sobre o rio
E a imensidão solitária de si mesmo.

A Sinfonia de Meus Moinhos

Salvador Dali
No silencio desta ventania
Que invade as portas
Da casa vazia
Ouço, lá longe,
Um moinho a ranger
É só o que eu ouço

Move o vento
O moinho
Range ele bem baixinho
O moinho a me moer.

Eu mesmo talhei
No ultimo inverno de solidão
Esse pequeno e áspero moinho
Só pra não viver sozinho
No silencio e imensidão
Desta casa vazia.

E agora eu sei
E também doe saber
Que sou eu
Que o faço moer

Moe o vento
O moinho
Geme ele bem baixinho
O moinho a me mover

* pequeno rabisco de uma idéia maior, áspera que é... do mesmo caderno das dores de amor de Narciso.

2 de mai. de 2010

Nota de Roda Pé.

Resposta a um certo comentário, de um amigo vampiro, no post anterior:

"É. Ultimamente não tenho feito outra coisa que não seja lutar contra estes moinhos de vento... talvez estejam eles dentro de mim a moer a ventania de minha própria alma."
Depois de um dia de ressaca de vinho da noite anterior, dormirei à pensar nestes moinhos... [nesta noite solitária de relâmpagos e tempestades]

10 de abr. de 2010

Momento Narcisista II.

                                                                     Francis Bacon, série de auto-retratos (1971-72)

Eu sou puro Grito
Mudo
De significado e definição

As minhas Intensidades
São todas dogmáticas

E as minhas paixões
São como suicidas kamikazes
Que se lançam
Nesta eterna guerra
De impulsos e amores egoístas

Sou um individuo
De pouquíssimas convicções

As poucas que tenho
Sempre falecem
Como as flores que suicidam-se
Lançando-se dos galhos, murchas e secas,
Antes do por-do-sol,
Sempre antes do por-do-sol.

24 de mar. de 2010

Subjetividade

Minha interioridade
É só intensidade e silêncio

Por isso não se assustem
Com meus gritos surdos
Sussurrados no escuro.
.........................................

14 de mar. de 2010

Por que o silencio...

Preciso ouvir o que a vida tem a dizer antes das palavras. Na verdade, me dói esse grito mudo das dores que não cabem nas palavras. O poeta quer, agora, se matar com tudo o que ele fez; pintar um quadro com o sangue do próprio pulso(sem cortar as veias, só fazer sangrar. Por que é na dor que a gente sente mais e é no vermelho do sangue que se reflete a verdadeira face de um ato desesperado): tenho um texto no meio de meus rascunhos e uma idéia de desenho na minha cabeça sobre essas duas imagens. Mas sinto que minha arte, a arte que vejo agora em mim, minha verdadeira arte, ainda esta por nascer. E só ouvindo este silêncio que agora risca a minha pele é que eu vou conseguir parir esse filho sem pai nem mãe, que não vai se lembrar de sofrer uma só partícula de lágrima por sua orfandade... É que O QUE EU QUERO É PARIR A MIM MESMO!

6 de mar. de 2010

Os ecos de um silêncio.

Ele não quer mais
Tentar gritar
Os sussurros
Do amor que feri

Ele não quer mais
Ter que dizer
Baixinho
Os uivos de dor da existência

Ele não quer mais
Ter que susssurar
Os gritos
Do amor que feri*

Ele não quer mais
Tentar gritar
Os sussurros
De dor da existência.

Fragmento para o poema anterior que, por ter sido feito depois da postagem, achei que seria melhor que fosse postado assim.

*como a rosa que abraçada com tanto furor e desespero não deixa de rasgar a pele, o véu fino que sustenta [o elefante, mesmo sem distinguir as próprias patas, se matem em pé] a nossa interioridade. 

3 de mar. de 2010

Do desespero e outros silêncios.


Angelo Bronzino, Triunfo de Vênus, 1450-5(fragmento)

E o poeta se joga
Do alto do fim
Do primeiro verso

Despenca todo poema
E cai em cima do ultimo
Ponto final

Ele não quer mais
Respirar locuções
Não quer mais se alimentar
De rimas

Ele quer se enforcar
Em cada palavra

Morrer sufocado
Por silêncio.


Escrevi isto hoje de manha, mas na verdade trago este nó por dentro desde ontem (e você sabe porque!). Sinto vontade de acabar com TUDO, mas, por covardia, vou acabando com isto aqui: de que me vale tanto dizer, se o mais importante é sempre silêncio?

26 de fev. de 2010

Do silêncio exterior.


- Façam silêncio!

  A mãe segura-o pelo braço, angustiada, tentando esconde-lo dos que passam pela calçada, dos que esperam o sinal fechar.

- Façam silencio!
- Quieto garoto, pra que tanto barulho?!

   O sol queima forte e se neste momento todos se calassem (os vendedores de embalagens vazias de utilidade; os carros que correm surdos e sem destino...) seria possível ouvir o estralar do asfalto escaldante.

- O que ele esta sentindo? Eu posso ajudá-la? ... Ele tem asma? Tente ouvir o peito dele!
- Talvez seja o coração. Ele tem tido esses ataques ultimamente. Eu tenho impedido-o de assistir desenhos animados em outros idiomas. Ele insiste em dizer que mesmo assim entende, mais eu desconfio que ele destorça tudo.

  Um pássaro observa imóvel do alto de um prédio que aponta para um céu de nuvens poucas.

- Ele deve ser dos que ainda acreditam nas expressões físicas; que a estética dos movimentos afetivos fala o que sempre se cala. Pobrezinho, há tanto para se ouvir.
- Oh! Tens razão! As tuas palavras me lembraram um livro que li recentemente. Gosto dos livros, eles carregam consigo histórias e vozes que, olhando, não se ouvem.

   Ele se cala e, olhando para a mãe, se da conta de como nós também somos livros, sempre fechados, sempre em silêncio. Agora mudo, ele olha a todos e pensa no grito do silencio que há entre eles.


A força do silêncio que há em mim me obrigou a publica-lo antes de encontrar uma imagem a altura. Se alguem tiver uma sugestão... Halamo?

16 de fev. de 2010

Momento Narcisista.



Yes! I Love My Chaos!

3 de fev. de 2010

Das noites em que o céu cai.

- Eu esqueci! Nem ao menos me lembro da origem, da etimologia, da teogonia (da cosmologia!) da pergunta quando.

- Meus olhos, perfurados por Sangue, após rompido o seu véu multiformizante, não mais enxergam uma só partícula Fóton de pensamento.

- O meu peito bate frio e seco. Pois até o sangue que por ele corria se desfez em partículas quânticas de indecisão: sem saber o Pulso porque pulsava... sem saber o Amor por quem aquecia.

- As minhas mãos, estáticas a tremer, pintoras surrealistas em potencial, erram na inércia do Não... do porque?

- Minha consciência, liquefeita, cai do teto escorrendo pelas paredes, como sangue de chacina, em busca de algo que se esqueceu pelos cantos,... pelos fins.


2 de fev. de 2010

O doce sacarina das palavras.

Nem mesmo as notas,
Que agora surdas, mudas aos meus ouvidos cegos,
São mais ingênuas.

Não notas-te?
Teu peito impuro
Se contamina de teu próprio ego.

Tuas mãos frias
Rasgam o véu do não dito
Por palavras sem sentido.

Não escreves sobre o impuro
Pois foges, pintando gostos
De aromatizantes artificiais

Pois o simples foge
Da mão que deseja pintar o sincero.
E o irreal sempre chega
Quando tentamos dizer a realidade.


   Teu corpo é tão multiplamente voluptuoso que chega a ser impossível te sentir em um único abraço... em um único coito.

27 de jan. de 2010

A beleza e o corvo


                                                                                                          Salvador Dali, Angustia.
O que tu sonhas?                                                              
Onde será que repousa
A tua beleza e a tua chaga?

Por quem tu sonhas?
Onde tu espera
O teu sonho e o teu medo?

Quem beijará
O teu pescoço e o teu espelho?

: carne viva (pele e osso) a se matar.

...E eu que vivo a sonhar?

Eu que vivo a sangrar...

Do silêncio.

                   

    E não importa o tão quanto alto eu grite, o grito interior é sempre mais ensurdecedor.


O grito, pintura de Edvard Munchu(1983)

19 de jan. de 2010

O canto dos impávidos.

Me elevo com tal glória e tanto,
Que a coluna que edifico para o meu ego
Se desfaz
Em lagrimas
De
Açúcar.

Pois se é doce o gosto da vitoria,
É também frágil
A primeira
Chuva.

E que tantas outras chuvas venham.
Porque é dos cacos
De tantos céus que vi cair,
Que faço um caminho de diamantes
Para caminhar.

E eu poderia sair agora pelo mundo;
Correr pelas ruas descalço
E sentir os cacos perfurarem meus pés.

Amar e beber
Todo esse sangue
Que banha o meu corpo
E me torna cada vez mais vivo e sedento
Por caminhos nus
E terras virgens.

O fim do poema.

Mas em que momento,
Às cegas, às escuras,
Eu fui te amar
Eu fui te ver?

Como rimas invisíveis
Uma sutileza implícita
Paranóia amiga
(Calada cega e sem nome).

Mas a realidade
É muito mais do que Beijos Sonhados.
Muito mais do que
Abraços Imaginados,
Na ausência, na espera.

Em que momento
A gente se perdeu,
Fingiu sumir,
Fingir, fugir do caminho?

Em que momento
As rimas sumirão?
A sutileza das métricas,
A volúpia dos gostos?

Em que momento
A insipiedade das palavras?


... E aqui te encontro, no fim do poema. Na linha tênua que separa a minha ilusão do teu rosto frio a me ignorar.


(escrito originalmente em 12 de dezembro de 2009)

31 de dez. de 2009

O jardineiro

Amar
De olhos fechados é mais fácil.
Enquanto as bocas se beijam,
As palavras se calam.

Sonhar
De olhos fechados é mais seguro.
Enquanto os planos dormem,
Os erros se perdem no escuro.

Os beijos platônicos
Estão esquecidos nas gavetas do possível.
Todos os enganos,
Feitos de frutos mal escolhidos,
São os sonhos que o destino
Não fez a vida sonhar.

E o jardineiro,
Podando as rosas,
Cortando as venenosas,
Não espera belas ou cheirosas.
Porque rosa que é rosa,
Em si, só nasce rosa.

(escrito originalmente em 23 de setembro de 2009)

Angustia.


A vida às vezes Pesa
De uma Forma angustiante
De uma Dor sem nome
E um momento que foge.

A vida corre.
Cheia de segundos,
Cheia de Sentenças.

A alma é como um Corte
Que se contamina com o próprio Sangue.
Eu vejo um tanque;
Talvez um poço,
Um Corpo
A sangrar silenciosamente.

Talvez a alma só se sinta contente
Nos momentos respirados.
Apenas Respirados.

(escrito originalmente em 30 de setembro de 2009)

19 de dez. de 2009

Ensaiando vôos II

Os 3 continentes (titulo provisório)

...Sentado de frente ao birô ele a observava como quem avistasse um mundo a ser desbravado. Sentada em um outro canto da sala, ela se perdia. Hora à folhear algumas revistas velhas que a sucessão de novas noticias e, mais ainda, especulações infinitas acerca de temas inúteis as tornaram talvez até menos usáveis que os jornais que agora aparavam as fezes do solitário pássaro que repousava na gaiola da varanda, hora à olhar pela janela e pensar no mundo que se perdia lá fora.
...Talvez imperscrutável mesmo fosse aquele olhar que se perdia de si mesmo. Talvez mistério mesmo fosse aquele procurar em outro mundo o que não via em si. E se perdia, posto que era carência por não ver.

(escrito originalmente em 19 de novembro de 2009)

Os olhos de Narciso.


- O céu esta caindo! O céu esta caindo! − gritava ele correndo de um lado para o outro com os olhos vermelhos de tanto que já não dormia.
...Enquanto isso, em um banco desta praça, pousada estava ela lançando aos pombos pedaços de pão (todos os dias ela passeava pela mesma praça, e via sempre os mesmos pombos, eles sempre pousavam por ali. Mas talvez não fossem os mesmos pombos; talvez não fosse a mesma praça; ela nunca era a mesma). “Como são simpáticos; comendo, ciscando; como se mais nada lhes importasse, apenas... a fome; ocupados da simples e incontestável necessidade: manter-se vivo”: pensava ela, talvez apenas sonhasse de tão serena e leve que parecia (sua alma vagava a galopes pelas flores daquele jardim; ela se deixava levar pelo perfume; e o seu corpo ali parado. Talvez nem ali estivesse, pois ela era apenas aquele sopro que pelo vento era levado).
- O céu esta caindo!
...Continuava ele a gritar como se mais nada fosse além daquele grito; como se o ar que naquele instante, pela boca aberta a gritar, invadia-lhe os pulmões, a própria vida que ali pulsava e corria, fosse, para ele, um furto. Pois ali estava a lançar-se sobre si mesmo; a evanescer; se despedaçar.
...Mas mesmo assim, enquanto para outro tudo era caos e eterna finitude de algo infinito, num paradoxal respirar e existir, ela ainda repousava como uma flor que aceita, com amor e serenidade, a violência do vento.
- O céu esta caindo!... Ele sempre cai − dizia ele, agora, bem baixinho. E ele não ousava calar-se, pois medo tinha de perder-se no próprio silêncio – a beleza está nos nossos olhos. Mas – balbuciando – eles são apenas espelhos; e refletem sempre a mesma imagem, a qual nunca vemos senão como reflexos... reflexos de nós mesmos. Mas – agora sussurrando – nos somos apenas espelhos! Alguns tão embaçados...
...E não importava se os pássaros cantavam as suas caos (canções) de progresso, ele apenas o seu grito ouvia. Como um espelho que olha apenas para si mesmo, mas nada vê. Apenas o infinito eterno de sua alma a questionar-se e afogar-se em si mesmo, poço profundo que é.

... e então, um dia, como alguém em desespero que parte em busca da bela amada, aquele Belo jovem ao rio se jogou. Esperando abraçar a própria imagem, pela morte ele não se viu sendo levado. Mas para o rio esta se mostrou. E desde então ele, o rio, eternamente mudo permaneceu; eternamente sem descer correnteza a baixo. Pois não mais os olhos da beleza ele tinha para contemplar o infinito misterioso que havia em si: eternamente a refletir, refletir, refletir...

... É tudo o que ai está. O resto é sussurro... Mudo.

(escrito inicialmente em 30 de abril de 2009, mas em constante modificação)

Observando os pássaros.


Triste é quem não ama.

Quem não exalta quem não canta
Um amor, uma imagem:
Paixão e espírito em frangalhos.
                                           
Os cacos e os galhos;
Os beijos e os braços.
Os sonhos feitos em silencio.
Os gritos de amor
Sussurrados
Ao pé do ouvido.

Triste é quem não ouve, quem não vive.

O canto surdo dos amantes;
O beijo mudo dos que se perdem
(o canto mudo dos amantes;
O beijo surdo dos que se perdem).


(escrito originalmente em 11 de novembro de 2009)

Crônicas do silêncio I


 Solipsismo








...Será a profunda inércia ou a pura inépcia que mantém o pequeno pássaro estático no fio de alta tensão? O que lhe impede de voar? Será a falta de rumos para migrar, ou peso de suas asas encharcadas de gozo solitário?


 (escrito originalmente em 7 de outubro de 2009)

Ensaiando vôos I

O estrabismo. 

                                                    
...A boca repousava entre as bochechas frias e sobre o queixo rígido. Meio aberta, parecia esperar o beijo de um homem; de um sonho idealizado representado por um rosto que vira em uma banca de revistas.
...Os olhos, fixos, separados pelo nariz estático, pois naquele instante prendera o ar nos pulmões (condenara-o após aquele suspiro que vinhera sem avisar), estes olhos, tão imóveis quanto um pássaro a contemplar a cidade do alto da estatua da catedral, contemplavam o horizonte, ou talvez nele se perdiam. Nada esperavam; se despediam. Pois seu corpo caminhava, talvez até corresse, não sei para onde, não sei por que caminho, enquanto mantinha sua cabeça curvada pra trás: toda ela era desejo e despedida... Necessidade e fuga.


(escrito originalmente em 1 de novembro de 2009)
                                                                                                                                                                                  
Obs: A imagem, Vichy, pintura de Roy lichtenstein, de 1964 (fragmento), é a original que me inspirou(despertou).