" Mas tenho de sorrir, porque o sal do mar está no meu sangue e podem existir dez mil estradas sobre a terra, mas nunca irão me confundir, pois o sangue do meu coração sempre voltará para a bela fonte. Então o que devo fazer? Devo erguer a boca ao céu, tropeçando e balbuciando com uma língua temerosa? Devo abrir o peito e bater nele como num tambor, buscando a atenção do meu Cristo? Ou não será melhor e mais sensato que me cubra e siga em frente? Haverá confusões e haverá fome; haverá solidão com apenas minhas lágrimas como pequenos pássaros confortadores, rolando para suavizar meus lábios secos. Mas haverá também consolação e haverá também beleza como o amor de uma garota morta. Haverá algum riso, um riso contido, e quieta espera na noite, um medo macio da noite como o beijo pródigo e mordaz da morte. Então haverá noite e os doces óleos das praias do meu mar, derramados sobre meus sentidos pelos capitães que desertei na sonhadora impetuosidade da minha juventude. Mas serei perdoado por isto, e por outras coisas, por Vera Rivken e pelo incessante bater das asas de Voltaire, por parar para ouvir e observar aquele fascinante pássaro, para todas as coisas haverá perdão quando eu retornar à minha terra natal pelo mar."
Pergunte ao Pó, John Fante, pg 103.
Meus agradecimentos a Pâmela Martini, é realmente um livre incrível.
É interessante como todos os escritores e poetas que tenho conhecido ultimamente sempre tiveram um contato com livros, palavras, desde de suas infâncias.
Eu nunca tive isso, cresci sem palavra. Recebendo do mundo as informações que ele me dava de graça, talvez seja por isso que hoje penso que foram de péssima qualidade(existe mesmo isso garoto?). Comecei a ler por teimosia e as palavras me sairam como sangue que jorrasse de um corte profundo: talvez seja por isso que a minha relação com as palavras foi sempre de dor, furto, crime...
Hoje, escrevo como que numa espécie de tentativa de respirar: o pulmão frio a ranger, o ar pesado, as vezes até cuspo sangue, vomito signos desconexos e sem nenhum sentido.
Obs: acho que este post deveria ser maior, pelo o conteúdo que ele pretende expressar. Na verdade, era pra ter sido publicado no blog novo(meucadernodegritos.blogspot.com), mas por falta de paciência pra construi-lo, e sendo eu terrivelmente perfeccionista, ele ainda não foi ao ar de vez.
[Seguia-se aqui algumas linhas tratando da minha tentativa de demonstrar o que significa esta metáfora com os "moinhos de vento". Mais uma vez, calei-as]
Achei a imagem na internet, quem conhecer o créditos, por favor, relatar-me nos comentários
Talvez uma escolha resolva
Talvez uma promessa acalente
Tomara que o medo se dissolva
Na incapacidade da mente
E ficamos nós a fazer-mos escolhas, acreditando que somos capazes de prever o efeito exato delas. Para amanhã, fazemos promessas. Tendo fé não apenas que sabemos o que nos será posto para escolher, mais que também sabemos quem seremos amanhã. E assim confiamos que seremos forte o bastante para agir da forma que agora achamos certo -ingenuidade sempre; algumas vezes, covardia de agir agora, diante dos fatos reais: sempre adiando e confiando na razão cega e limitada.
Pobre de nos! Temosos olhos de vidro, sempre embaçados com o calor dos afetos.
Resposta a um certo comentário, de um amigo vampiro, no post anterior:
"É. Ultimamente não tenho feito outra coisa que não seja lutar contra estes moinhos de vento... talvez estejam eles dentro de mim a moer a ventania de minha própria alma."
Depois de um dia de ressaca de vinho da noite anterior, dormirei à pensar nestes moinhos... [nesta noite solitária de relâmpagos e tempestades]
E as minhas paixões
São como suicidas kamikazes
Que se lançam
Nesta eterna guerra
De impulsos e amores egoístas
Sou um individuo
De pouquíssimas convicções
As poucas que tenho
Sempre falecem
Como as flores que suicidam-se
Lançando-se dos galhos, murchas e secas,
Antes do por-do-sol,
Sempre antes do por-do-sol.
Preciso ouvir o que a vida tem a dizer antes das palavras. Na verdade, me dói esse grito mudo das dores que não cabem nas palavras. O poeta quer, agora, se matar com tudo o que ele fez; pintar um quadro com o sangue do próprio pulso(sem cortar as veias, só fazer sangrar. Por que é na dor que a gente sente mais e é no vermelho do sangue que se reflete a verdadeira face de um ato desesperado): tenho um texto no meio de meus rascunhos e uma idéia de desenho na minha cabeça sobre essas duas imagens. Mas sinto que minha arte, a arte que vejo agora em mim, minha verdadeira arte, ainda esta por nascer. E só ouvindo este silêncio que agora risca a minha pele é que eu vou conseguir parir esse filho sem pai nem mãe, que não vai se lembrar de sofrer uma só partícula de lágrima por sua orfandade... É que O QUE EU QUERO É PARIR A MIM MESMO!
Fragmento para o poema anterior que, por ter sido feito depois da postagem, achei que seria melhor que fosse postado assim.
*como a rosa que abraçada com tanto furor e desespero não deixa de rasgar a pele, o véu fino que sustenta [o elefante, mesmo sem distinguir as próprias patas, se matem em pé] a nossa interioridade.
Angelo Bronzino, Triunfo de Vênus, 1450-5(fragmento)
E o poeta se joga
Do alto do fim
Do primeiro verso
Despenca todo poema
E cai em cima do ultimo
Ponto final
Ele não quer mais
Respirar locuções
Não quer mais se alimentar
De rimas
Ele quer se enforcar
Em cada palavra
Morrer sufocado
Por silêncio.
Escrevi isto hoje de manha, mas na verdade trago este nó por dentro desde ontem (e você sabe porque!). Sinto vontade de acabar com TUDO, mas, por covardia, vou acabando com isto aqui: de que me vale tanto dizer, se o mais importante é sempre silêncio?
A mãe segura-o pelo braço, angustiada, tentando esconde-lo dos que passam pela calçada, dos que esperam o sinal fechar.
- Façam silencio!
- Quieto garoto, pra que tanto barulho?!
O sol queima forte e se neste momento todos se calassem (os vendedores de embalagens vazias de utilidade; os carros que correm surdos e sem destino...) seria possível ouvir o estralar do asfalto escaldante.
- O que ele esta sentindo? Eu posso ajudá-la? ... Ele tem asma? Tente ouvir o peito dele!
- Talvez seja o coração. Ele tem tido esses ataques ultimamente. Eu tenho impedido-o de assistir desenhos animados em outros idiomas. Ele insiste em dizer que mesmo assim entende, mais eu desconfio que ele destorça tudo.
Um pássaro observa imóvel do alto de um prédio que aponta para um céu de nuvens poucas.
- Ele deve ser dos que ainda acreditam nas expressões físicas; que a estética dos movimentos afetivos fala o que sempre se cala. Pobrezinho, há tanto para se ouvir.
- Oh! Tens razão! As tuas palavras me lembraram um livro que li recentemente. Gosto dos livros, eles carregam consigo histórias e vozes que, olhando, não se ouvem.
Ele se cala e, olhando para a mãe, se da conta de como nós também somos livros, sempre fechados, sempre em silêncio. Agora mudo, ele olha a todos e pensa no grito do silencio que há entre eles.
A força do silêncio que há em mim me obrigou a publica-lo antes de encontrar uma imagem a altura. Se alguem tiver uma sugestão... Halamo?
- Eu esqueci! Nem ao menos me lembro da origem, da etimologia, da teogonia (da cosmologia!) da pergunta quando.
- Meus olhos, perfurados por Sangue, após rompido o seu véu multiformizante, não mais enxergam uma só partícula Fóton de pensamento.
- O meu peito bate frio e seco. Pois até o sangue que por ele corria se desfez em partículas quânticas de indecisão: sem saber o Pulso porque pulsava... sem saber o Amor por quem aquecia.
- As minhas mãos, estáticas a tremer, pintoras surrealistas em potencial, erram na inércia do Não... do porque?
- Minha consciência, liquefeita, cai do teto escorrendo pelas paredes, como sangue de chacina, em busca de algo que se esqueceu pelos cantos,... pelos fins.
Amar
De olhos fechados é mais fácil.
Enquanto as bocas se beijam,
As palavras se calam.
Sonhar
De olhos fechados é mais seguro.
Enquanto os planos dormem,
Os erros se perdem no escuro.
Os beijos platônicos
Estão esquecidos nas gavetas do possível.
Todos os enganos,
Feitos de frutos mal escolhidos,
São os sonhos que o destino
Não fez a vida sonhar.
E o jardineiro,
Podando as rosas,
Cortando as venenosas,
Não espera belas ou cheirosas.
Porque rosa que é rosa,
Em si, só nasce rosa.
...Sentado de frente ao birô ele a observava como quem avistasse um mundo a ser desbravado. Sentada em um outro canto da sala, ela se perdia. Hora à folhear algumas revistas velhas que a sucessão de novas noticias e, mais ainda, especulações infinitas acerca de temas inúteis as tornaram talvez até menos usáveis que os jornais que agora aparavam as fezes do solitário pássaro que repousava na gaiola da varanda, hora à olhar pela janela e pensar no mundo que se perdia lá fora. ...Talvez imperscrutável mesmo fosse aquele olhar que se perdia de si mesmo. Talvez mistério mesmo fosse aquele procurar em outro mundo o que não via em si. E se perdia, posto que era carência por não ver.
- O céu esta caindo! O céu esta caindo! − gritava ele correndo de um lado para o outro com os olhos vermelhos de tanto que já não dormia.
...Enquanto isso, em um banco desta praça, pousada estava ela lançando aos pombos pedaços de pão (todos os dias ela passeava pela mesma praça, e via sempre os mesmos pombos, eles sempre pousavam por ali. Mas talvez não fossem os mesmos pombos; talvez não fosse a mesma praça; ela nunca era a mesma). “Como são simpáticos; comendo, ciscando; como se mais nada lhes importasse, apenas... a fome; ocupados da simples e incontestável necessidade: manter-se vivo”: pensava ela, talvez apenas sonhasse de tão serena e leve que parecia (sua alma vagava a galopes pelas flores daquele jardim; ela se deixava levar pelo perfume; e o seu corpo ali parado. Talvez nem ali estivesse, pois ela era apenas aquele sopro que pelo vento era levado).
- O céu esta caindo!
...Continuava ele a gritar como se mais nada fosse além daquele grito; como se o ar que naquele instante, pela boca aberta a gritar, invadia-lhe os pulmões, a própria vida que ali pulsava e corria, fosse, para ele, um furto. Pois ali estava a lançar-se sobre si mesmo; a evanescer; se despedaçar.
...Mas mesmo assim, enquanto para outro tudo era caos e eterna finitude de algo infinito, num paradoxal respirar e existir, ela ainda repousava como uma flor que aceita, com amor e serenidade, a violência do vento.
- O céu esta caindo!... Ele sempre cai − dizia ele, agora, bem baixinho. E ele não ousava calar-se, pois medo tinha de perder-se no próprio silêncio – a beleza está nos nossos olhos. Mas – balbuciando – eles são apenas espelhos; e refletem sempre a mesma imagem, a qual nunca vemos senão como reflexos... reflexos de nós mesmos. Mas – agora sussurrando – nos somos apenas espelhos! Alguns tão embaçados...
...E não importava se os pássaros cantavam as suas caos (canções) de progresso, ele apenas o seu grito ouvia. Como um espelho que olha apenas para si mesmo, mas nada vê. Apenas o infinito eterno de sua alma a questionar-se e afogar-se em si mesmo, poço profundo que é.
... e então, um dia, como alguém em desespero que parte em busca da bela amada, aquele Belo jovem ao rio se jogou. Esperando abraçar a própria imagem, pela morte ele não se viu sendo levado. Mas para o rio esta se mostrou. E desde então ele, o rio, eternamente mudo permaneceu; eternamente sem descer correnteza a baixo. Pois não mais os olhos da beleza ele tinha para contemplar o infinito misterioso que havia em si: eternamente a refletir, refletir, refletir...
... É tudo o que ai está. O resto é sussurro... Mudo.
(escrito inicialmente em 30 de abril de 2009, mas em constante modificação)
...Será a profunda inércia ou a pura inépcia que mantém o pequeno pássaroestático no fio de alta tensão? O que lhe impede de voar? Será a falta de rumos para migrar, ou peso de suas asas encharcadas de gozo solitário?
...A boca repousava entre as bochechas frias e sobre o queixo rígido. Meio aberta, parecia esperar o beijo de um homem; de um sonho idealizado representado por um rosto que vira em uma banca de revistas.
...Os olhos, fixos, separados pelo nariz estático, pois naquele instante prendera o ar nos pulmões (condenara-o após aquele suspiro que vinhera sem avisar), estes olhos, tão imóveis quanto um pássaro a contemplar a cidade do alto da estatua da catedral, contemplavam o horizonte, ou talvez nele se perdiam. Nada esperavam; se despediam. Pois seu corpo caminhava, talvez até corresse, não sei para onde, não sei por que caminho, enquanto mantinha sua cabeça curvada pra trás: toda ela era desejo e despedida... Necessidade e fuga.
(escrito originalmente em 1 de novembro de 2009)
Obs: A imagem, Vichy, pintura de Roy lichtenstein, de 1964 (fragmento), é a original que me inspirou(despertou).
Nasci sem dom algum; despido de qualquer função que seja. Há em mim uma espécie de vazio imenso cheio de medos e saudades uivantes: um misto de silencio e gritos de dor e ressentimento – mais eu sei que um dia ei de fazer uma sinfonia disto tudo. Eu ainda vou compor uma sinfonia!