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10 de jul. de 2010

Meditação Quarta, Parágrafo Quarto*.

Ai de mim
Ai de nós

Feitos em parte de Tudo
E em outra parte de Nada

Uma parte arriscadamente sincera
Outra parte cegamente enganada

Tendo em mim
Todos os desejos
Toda a coragem e todo o medo
Para ir de encontro aos rochedos
Que o mar dos afetos me levar

Mas há neste jardim de flores suicidas (ah, minhas convicções!)
Pássaros que cantam motivos que não me pertencem
Velhos livros empoeirados
Na caduquice do tempo:
- o dever-dos-amores!
- A moral-geométrica-dos-desejos!

Então algum Nada que há em nós
Se encontra com algo de um Tudo
Que não é nosso

Ingênuo, e ainda vazio,
Vejo-me cantando:
- Agora sei todos os teoremas-pitagóricos-dos-desejos-de-plástico;
Sou uma “tecla-de-piano” **-afinada-e-lubrificada-que-soa-sempre-a-mesma-nota!

Mas os lábios que me beijam
Não me excitam
O hálito quente ao meu ouvido
Não arrepia o meu corpo

Pois se tudo o que há em mim é mar
Qualquer forma de cais
E só um nada qualquer no mundo

Não é meu este corpo

Nem é minha esta boca que se abre
Nem a fome que ela sente

Gritarei nos ouvidos de Descartes
Até que ele fique surdo:
- O meu único erro
É não seguir as marés de minhas intensidades!
(mudas)



"Não existem motivações racionais. Existem racionalizações de motivos emocionais."
(Aline Mayfair, aqui)



*Descartes, René. Meditações Metafísicas, “Meditação Quarta, Do Verdadeiro e do Falso”. 1641.
** Do livro Memórias do Subsolo, do Dostoiéviski. Mais precisamente, na pagina 44.

28 de jun. de 2010

O Destino.


Achei a imagem na internet, quem conhecer o créditos, por favor, relatar-me nos comentários

Talvez uma escolha resolva
Talvez uma promessa acalente
Tomara que o medo se dissolva
Na incapacidade da mente

E ficamos nós a fazer-mos escolhas, acreditando que somos capazes de prever o efeito exato delas. Para amanhã, fazemos promessas. Tendo fé não apenas que sabemos o que nos será posto para escolher, mais que também sabemos quem seremos amanhã. E assim confiamos que seremos forte o bastante para agir da forma que agora achamos certo -ingenuidade sempre; algumas vezes, covardia de agir agora, diante dos fatos reais: sempre adiando e confiando na razão cega e limitada.
Pobre de nos! Temos os olhos de vidro, sempre embaçados com o calor dos afetos.

10 de abr. de 2010

Momento Narcisista II.

                                                                     Francis Bacon, série de auto-retratos (1971-72)

Eu sou puro Grito
Mudo
De significado e definição

As minhas Intensidades
São todas dogmáticas

E as minhas paixões
São como suicidas kamikazes
Que se lançam
Nesta eterna guerra
De impulsos e amores egoístas

Sou um individuo
De pouquíssimas convicções

As poucas que tenho
Sempre falecem
Como as flores que suicidam-se
Lançando-se dos galhos, murchas e secas,
Antes do por-do-sol,
Sempre antes do por-do-sol.

24 de mar. de 2010

Subjetividade

Minha interioridade
É só intensidade e silêncio

Por isso não se assustem
Com meus gritos surdos
Sussurrados no escuro.
.........................................

6 de mar. de 2010

Os ecos de um silêncio.

Ele não quer mais
Tentar gritar
Os sussurros
Do amor que feri

Ele não quer mais
Ter que dizer
Baixinho
Os uivos de dor da existência

Ele não quer mais
Ter que susssurar
Os gritos
Do amor que feri*

Ele não quer mais
Tentar gritar
Os sussurros
De dor da existência.

Fragmento para o poema anterior que, por ter sido feito depois da postagem, achei que seria melhor que fosse postado assim.

*como a rosa que abraçada com tanto furor e desespero não deixa de rasgar a pele, o véu fino que sustenta [o elefante, mesmo sem distinguir as próprias patas, se matem em pé] a nossa interioridade. 

3 de mar. de 2010

Do desespero e outros silêncios.


Angelo Bronzino, Triunfo de Vênus, 1450-5(fragmento)

E o poeta se joga
Do alto do fim
Do primeiro verso

Despenca todo poema
E cai em cima do ultimo
Ponto final

Ele não quer mais
Respirar locuções
Não quer mais se alimentar
De rimas

Ele quer se enforcar
Em cada palavra

Morrer sufocado
Por silêncio.


Escrevi isto hoje de manha, mas na verdade trago este nó por dentro desde ontem (e você sabe porque!). Sinto vontade de acabar com TUDO, mas, por covardia, vou acabando com isto aqui: de que me vale tanto dizer, se o mais importante é sempre silêncio?

2 de fev. de 2010

O doce sacarina das palavras.

Nem mesmo as notas,
Que agora surdas, mudas aos meus ouvidos cegos,
São mais ingênuas.

Não notas-te?
Teu peito impuro
Se contamina de teu próprio ego.

Tuas mãos frias
Rasgam o véu do não dito
Por palavras sem sentido.

Não escreves sobre o impuro
Pois foges, pintando gostos
De aromatizantes artificiais

Pois o simples foge
Da mão que deseja pintar o sincero.
E o irreal sempre chega
Quando tentamos dizer a realidade.


   Teu corpo é tão multiplamente voluptuoso que chega a ser impossível te sentir em um único abraço... em um único coito.

27 de jan. de 2010

A beleza e o corvo


                                                                                                          Salvador Dali, Angustia.
O que tu sonhas?                                                              
Onde será que repousa
A tua beleza e a tua chaga?

Por quem tu sonhas?
Onde tu espera
O teu sonho e o teu medo?

Quem beijará
O teu pescoço e o teu espelho?

: carne viva (pele e osso) a se matar.

...E eu que vivo a sonhar?

Eu que vivo a sangrar...

19 de jan. de 2010

O canto dos impávidos.

Me elevo com tal glória e tanto,
Que a coluna que edifico para o meu ego
Se desfaz
Em lagrimas
De
Açúcar.

Pois se é doce o gosto da vitoria,
É também frágil
A primeira
Chuva.

E que tantas outras chuvas venham.
Porque é dos cacos
De tantos céus que vi cair,
Que faço um caminho de diamantes
Para caminhar.

E eu poderia sair agora pelo mundo;
Correr pelas ruas descalço
E sentir os cacos perfurarem meus pés.

Amar e beber
Todo esse sangue
Que banha o meu corpo
E me torna cada vez mais vivo e sedento
Por caminhos nus
E terras virgens.

O fim do poema.

Mas em que momento,
Às cegas, às escuras,
Eu fui te amar
Eu fui te ver?

Como rimas invisíveis
Uma sutileza implícita
Paranóia amiga
(Calada cega e sem nome).

Mas a realidade
É muito mais do que Beijos Sonhados.
Muito mais do que
Abraços Imaginados,
Na ausência, na espera.

Em que momento
A gente se perdeu,
Fingiu sumir,
Fingir, fugir do caminho?

Em que momento
As rimas sumirão?
A sutileza das métricas,
A volúpia dos gostos?

Em que momento
A insipiedade das palavras?


... E aqui te encontro, no fim do poema. Na linha tênua que separa a minha ilusão do teu rosto frio a me ignorar.


(escrito originalmente em 12 de dezembro de 2009)

31 de dez. de 2009

O jardineiro

Amar
De olhos fechados é mais fácil.
Enquanto as bocas se beijam,
As palavras se calam.

Sonhar
De olhos fechados é mais seguro.
Enquanto os planos dormem,
Os erros se perdem no escuro.

Os beijos platônicos
Estão esquecidos nas gavetas do possível.
Todos os enganos,
Feitos de frutos mal escolhidos,
São os sonhos que o destino
Não fez a vida sonhar.

E o jardineiro,
Podando as rosas,
Cortando as venenosas,
Não espera belas ou cheirosas.
Porque rosa que é rosa,
Em si, só nasce rosa.

(escrito originalmente em 23 de setembro de 2009)

Angustia.


A vida às vezes Pesa
De uma Forma angustiante
De uma Dor sem nome
E um momento que foge.

A vida corre.
Cheia de segundos,
Cheia de Sentenças.

A alma é como um Corte
Que se contamina com o próprio Sangue.
Eu vejo um tanque;
Talvez um poço,
Um Corpo
A sangrar silenciosamente.

Talvez a alma só se sinta contente
Nos momentos respirados.
Apenas Respirados.

(escrito originalmente em 30 de setembro de 2009)

19 de dez. de 2009

Observando os pássaros.


Triste é quem não ama.

Quem não exalta quem não canta
Um amor, uma imagem:
Paixão e espírito em frangalhos.
                                           
Os cacos e os galhos;
Os beijos e os braços.
Os sonhos feitos em silencio.
Os gritos de amor
Sussurrados
Ao pé do ouvido.

Triste é quem não ouve, quem não vive.

O canto surdo dos amantes;
O beijo mudo dos que se perdem
(o canto mudo dos amantes;
O beijo surdo dos que se perdem).


(escrito originalmente em 11 de novembro de 2009)