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28 de jul de 2010

Relatos de um poeta desesperado.

Tive um pesadelo!

Acordei envolto no suor de meu corpo
Que tremia na já tão intima solidão

E , de imediato, quase antes do primeiro suspiro,
Percebi-me vazio de palavras diante do fato irrevogável que era meu corpo a crepitar
Uma escuridão imensa, dentro de mim

Os signos eram apenas polígonos carrancudos e opacos

O contraditório escândalo sobre a Poesia

Sem serenidade não há escrito
Há apenas, Grito!

É isto que, agora, ouço quanto sinto a pele tremer e rasgar

:

Até as palavras mais duras precisam de vento leve que as faça flutuar

A poesia dor, pode-se dizer
É o momento em que o corvo,
Com dentes em vermelho fétido e putréfico,
Quase toca o chão em um rasante sutil

Mas, como pode?
O peso de cada grito em uma unica palavra leve?

10 de jul de 2010

Meditação Quarta, Parágrafo Quarto*.

Ai de mim
Ai de nós

Feitos em parte de Tudo
E em outra parte de Nada

Uma parte arriscadamente sincera
Outra parte cegamente enganada

Tendo em mim
Todos os desejos
Toda a coragem e todo o medo
Para ir de encontro aos rochedos
Que o mar dos afetos me levar

Mas há neste jardim de flores suicidas (ah, minhas convicções!)
Pássaros que cantam motivos que não me pertencem
Velhos livros empoeirados
Na caduquice do tempo:
- o dever-dos-amores!
- A moral-geométrica-dos-desejos!

Então algum Nada que há em nós
Se encontra com algo de um Tudo
Que não é nosso

Ingênuo, e ainda vazio,
Vejo-me cantando:
- Agora sei todos os teoremas-pitagóricos-dos-desejos-de-plástico;
Sou uma “tecla-de-piano” **-afinada-e-lubrificada-que-soa-sempre-a-mesma-nota!

Mas os lábios que me beijam
Não me excitam
O hálito quente ao meu ouvido
Não arrepia o meu corpo

Pois se tudo o que há em mim é mar
Qualquer forma de cais
E só um nada qualquer no mundo

Não é meu este corpo

Nem é minha esta boca que se abre
Nem a fome que ela sente

Gritarei nos ouvidos de Descartes
Até que ele fique surdo:
- O meu único erro
É não seguir as marés de minhas intensidades!
(mudas)



"Não existem motivações racionais. Existem racionalizações de motivos emocionais."
(Aline Mayfair, aqui)



*Descartes, René. Meditações Metafísicas, “Meditação Quarta, Do Verdadeiro e do Falso”. 1641.
** Do livro Memórias do Subsolo, do Dostoiéviski. Mais precisamente, na pagina 44.

9 de jul de 2010

Estou a ler:

" Mas tenho de sorrir, porque o sal do mar está no meu sangue e podem existir dez mil estradas sobre a terra, mas nunca irão me confundir, pois o sangue do meu coração sempre voltará para a bela fonte. Então o que devo fazer? Devo erguer a boca ao céu, tropeçando e balbuciando com uma língua temerosa? Devo abrir o peito e bater nele como num tambor, buscando a atenção do meu Cristo? Ou não será melhor e mais sensato que me cubra e siga em frente? Haverá confusões e haverá fome; haverá solidão com apenas minhas lágrimas como pequenos pássaros confortadores, rolando para suavizar meus lábios secos. Mas haverá também consolação e haverá também beleza como o amor de uma garota morta. Haverá algum riso, um riso contido, e quieta espera na noite, um medo macio da noite como o beijo pródigo e mordaz da morte. Então haverá noite e os doces óleos das praias do meu mar, derramados sobre meus sentidos pelos capitães que desertei na sonhadora impetuosidade da minha juventude. Mas serei perdoado por isto, e por outras coisas, por Vera Rivken e pelo incessante bater das asas de Voltaire, por parar para ouvir e observar aquele fascinante pássaro, para todas as coisas haverá perdão quando eu retornar à minha terra natal pelo mar."

Pergunte ao Pó, John Fante, pg 103.


Meus agradecimentos a Pâmela Martini, é realmente um livre incrível.

8 de jul de 2010

Conselhos de Okeanós I.


Ângelo Bronzino, Alegoria do Triunfo de Vênus (entre 1540-1545)

Só aprende a amar quem é capaz de assumir toda a dor que se sente.

4 de jul de 2010

O papel rasgado e o sangue a escorrer.



É interessante como todos os escritores e poetas que tenho conhecido ultimamente sempre tiveram um contato com livros, palavras, desde de suas infâncias.
Eu nunca tive isso, cresci sem palavra. Recebendo do mundo as informações que ele me dava de graça, talvez seja por isso que hoje penso que foram de péssima qualidade(existe mesmo isso garoto?). Comecei a ler por teimosia e as palavras me sairam como sangue que jorrasse de um corte profundo: talvez seja por isso que a minha relação com as palavras foi sempre de dor, furto, crime...
Hoje, escrevo como que numa espécie de tentativa de respirar: o pulmão frio a ranger, o ar pesado, as vezes até cuspo sangue, vomito signos desconexos e sem nenhum sentido.


Obs: acho que este post deveria ser maior, pelo o conteúdo que ele pretende expressar. Na verdade, era pra ter sido publicado no blog novo(meucadernodegritos.blogspot.com), mas por falta de paciência pra construi-lo, e sendo eu terrivelmente perfeccionista, ele ainda não foi ao ar de vez.

3 de jul de 2010

Ainda sobre a pagina em branco e o papel rasgado.

Enfim, eis que é a vontade...

Vontade de ser ritmo!

Uma orquestra inteira a invadir a alcova do silêncio
Marcando o compasso da marcha intrépida
(calando os relógios que sussurravam o fim e a resignação)

É só por isso,
Pelo silêncio e pelo grito:
Os poemas, as pinturas na caverna, os argumentos lógicos, a insolência dos amores...
E sobre tudo, os moinhos de vento: ...


[Seguia-se aqui algumas linhas tratando da minha tentativa de demonstrar o que significa esta metáfora com os "moinhos de vento". Mais uma vez, calei-as]