Amar
De olhos fechados é mais fácil.
Enquanto as bocas se beijam,
As palavras se calam.
Sonhar
De olhos fechados é mais seguro.
Enquanto os planos dormem,
Os erros se perdem no escuro.
Os beijos platônicos
Estão esquecidos nas gavetas do possível.
Todos os enganos,
Feitos de frutos mal escolhidos,
São os sonhos que o destino
Não fez a vida sonhar.
E o jardineiro,
Podando as rosas,
Cortando as venenosas,
Não espera belas ou cheirosas.
Porque rosa que é rosa,
Em si, só nasce rosa.
...Sentado de frente ao birô ele a observava como quem avistasse um mundo a ser desbravado. Sentada em um outro canto da sala, ela se perdia. Hora à folhear algumas revistas velhas que a sucessão de novas noticias e, mais ainda, especulações infinitas acerca de temas inúteis as tornaram talvez até menos usáveis que os jornais que agora aparavam as fezes do solitário pássaro que repousava na gaiola da varanda, hora à olhar pela janela e pensar no mundo que se perdia lá fora. ...Talvez imperscrutável mesmo fosse aquele olhar que se perdia de si mesmo. Talvez mistério mesmo fosse aquele procurar em outro mundo o que não via em si. E se perdia, posto que era carência por não ver.
- O céu esta caindo! O céu esta caindo! − gritava ele correndo de um lado para o outro com os olhos vermelhos de tanto que já não dormia.
...Enquanto isso, em um banco desta praça, pousada estava ela lançando aos pombos pedaços de pão (todos os dias ela passeava pela mesma praça, e via sempre os mesmos pombos, eles sempre pousavam por ali. Mas talvez não fossem os mesmos pombos; talvez não fosse a mesma praça; ela nunca era a mesma). “Como são simpáticos; comendo, ciscando; como se mais nada lhes importasse, apenas... a fome; ocupados da simples e incontestável necessidade: manter-se vivo”: pensava ela, talvez apenas sonhasse de tão serena e leve que parecia (sua alma vagava a galopes pelas flores daquele jardim; ela se deixava levar pelo perfume; e o seu corpo ali parado. Talvez nem ali estivesse, pois ela era apenas aquele sopro que pelo vento era levado).
- O céu esta caindo!
...Continuava ele a gritar como se mais nada fosse além daquele grito; como se o ar que naquele instante, pela boca aberta a gritar, invadia-lhe os pulmões, a própria vida que ali pulsava e corria, fosse, para ele, um furto. Pois ali estava a lançar-se sobre si mesmo; a evanescer; se despedaçar.
...Mas mesmo assim, enquanto para outro tudo era caos e eterna finitude de algo infinito, num paradoxal respirar e existir, ela ainda repousava como uma flor que aceita, com amor e serenidade, a violência do vento.
- O céu esta caindo!... Ele sempre cai − dizia ele, agora, bem baixinho. E ele não ousava calar-se, pois medo tinha de perder-se no próprio silêncio – a beleza está nos nossos olhos. Mas – balbuciando – eles são apenas espelhos; e refletem sempre a mesma imagem, a qual nunca vemos senão como reflexos... reflexos de nós mesmos. Mas – agora sussurrando – nos somos apenas espelhos! Alguns tão embaçados...
...E não importava se os pássaros cantavam as suas caos (canções) de progresso, ele apenas o seu grito ouvia. Como um espelho que olha apenas para si mesmo, mas nada vê. Apenas o infinito eterno de sua alma a questionar-se e afogar-se em si mesmo, poço profundo que é.
... e então, um dia, como alguém em desespero que parte em busca da bela amada, aquele Belo jovem ao rio se jogou. Esperando abraçar a própria imagem, pela morte ele não se viu sendo levado. Mas para o rio esta se mostrou. E desde então ele, o rio, eternamente mudo permaneceu; eternamente sem descer correnteza a baixo. Pois não mais os olhos da beleza ele tinha para contemplar o infinito misterioso que havia em si: eternamente a refletir, refletir, refletir...
... É tudo o que ai está. O resto é sussurro... Mudo.
(escrito inicialmente em 30 de abril de 2009, mas em constante modificação)
...Será a profunda inércia ou a pura inépcia que mantém o pequeno pássaroestático no fio de alta tensão? O que lhe impede de voar? Será a falta de rumos para migrar, ou peso de suas asas encharcadas de gozo solitário?
...A boca repousava entre as bochechas frias e sobre o queixo rígido. Meio aberta, parecia esperar o beijo de um homem; de um sonho idealizado representado por um rosto que vira em uma banca de revistas.
...Os olhos, fixos, separados pelo nariz estático, pois naquele instante prendera o ar nos pulmões (condenara-o após aquele suspiro que vinhera sem avisar), estes olhos, tão imóveis quanto um pássaro a contemplar a cidade do alto da estatua da catedral, contemplavam o horizonte, ou talvez nele se perdiam. Nada esperavam; se despediam. Pois seu corpo caminhava, talvez até corresse, não sei para onde, não sei por que caminho, enquanto mantinha sua cabeça curvada pra trás: toda ela era desejo e despedida... Necessidade e fuga.
(escrito originalmente em 1 de novembro de 2009)
Obs: A imagem, Vichy, pintura de Roy lichtenstein, de 1964 (fragmento), é a original que me inspirou(despertou).
Nasci sem dom algum; despido de qualquer função que seja. Há em mim uma espécie de vazio imenso cheio de medos e saudades uivantes: um misto de silencio e gritos de dor e ressentimento – mais eu sei que um dia ei de fazer uma sinfonia disto tudo. Eu ainda vou compor uma sinfonia!